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16 de jul. de 2013

O problema do ensino da gramática nas escolas


Em seu livro Saberes gramaticais na escola, (In.: Ensino de gramática: descrição e uso [VIEIRA, Silvia R; BRANDÃO, Silvia F.; São Paulo: Contexto, 2007, pp. 31-54]), o professor Afranio Gonçalves Barbosa, doutor em Letras (Letras Vernáculas – Língua Portuguesa), aborda a questão do que vai mal no nível básico do ensino da língua portuguesa.

Professor do Departamento de Letras Vernáculas da UFRJ desde abril de 1994, com sete projetos de pesquisa concluídos e três em andamento, e uma produção intelectual de 123 obras, 25 das quais livros, na área de língua portuguesa, o autor se vale de sua experiência prática e conhecimento teórico para questionar o modelo de ensino da gramática de língua portuguesa adotado nas escolas brasileiras.

A pergunta “certo, ou errado?”, em termos gramaticais, parece ser o pivô da discussão. Essa é a pergunta com que se deparam os professores de formação básica em língua portuguesa, e para a qual têm pouco preparo a fim de dar uma resposta satisfatória. Além disso, o autor expõe a fragilidade argumentativa dos chamados consultórios gramaticais em suas afirmações taxativas sobre formas e usos da língua considerados ‘errados’.

O objetivo do autor foi examinar de modo crítico o quadro existente no campo do ensino da gramática na escola e apresentar alternativas possíveis para tratar do problema. Seu método de análise da questão dos saberes gramaticais na escola utiliza como exemplo o tópico gramatical formas nominais do verbo, e é apresentado de forma esquemática, que pode ser aplicada a qualquer questão de correção gramatical.

Segundo o autor, o profissional de Letras precisa deter pelo menos três saberes, a fim de poder lidar com o desafio de ensinar a gramática na escola, diante das crises social, científica e do magistério. São eles: (1) O que dizem os falantes, a norma culta local; (2) o que diz a tradição gramatical; e (3) o que dizem as pesquisas linguísticas. Uma vez detentor desses saberes, o professor saberá que certo e errado não são respostas absolutas, mas dependem do contexto de fala em que as formas são empregadas. Em grande parte das vezes, a melhor resposta para questões do tipo “certo ou errado?” deveria ser: “nem certo, nem errado, mas está inadequado para uso fora da comunidade”, argumenta o autor. 

Em conclusão, o texto afirma que o profissional de Letras deve ser capaz de ajudar o aluno a desenvolver a habilidade de ajustar seu registro de fala de acordo com a situação discursiva. Expresso pelo dito popular, “cada lugar tem seu fuso, cada povo tem seu uso”.  

Num texto claro, acessível, coerente e consistente, o professor Afranio Barbosa consegue chamar a atenção para uma questão premente no ensino da língua portuguesa no Brasil. Citando o escritor Ataliba de Castilho, o autor toca na questão da crise do magistério, que pode ser vista, entre outras coisas, na desvalorização do professor de ensino básico, em especial. A experiência de quase 20 anos no ensino de Letras Vernáculas atribui credibilidade aos argumentos do professor.


A soma das vozes que se erguem, para promover o saneamento do ensino da gramática na escola, ainda não é suficientemente forte para vencer os preconceitos enraizados na cultura nacional que são, por sua vez, regados e nutridos por uma parcela significativa da mídia televisiva, particularmente. Nesse cenário, Saberes gramaticais na escola, do professor Afranio Barbosa, contribui para a evolução do ensino de duas formas básicas. Primeiro, no apontamento do que vai mal nessa área. Depois, na indicação de que a formação adequada de novos profissionais de Letras pode ser o caminho mais curto e menos sinuoso para se chegar ao ensino da língua portuguesa como ela é, não como ela foi sete séculos atrás.

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 November 26, 2012
Como se deve ensinar Língua Portuguesa para os alunos de hoje? Já é possível enfrentar o grande desafio que se impôs quando uma grande massa de brasileiros trouxe às escolas seus falares, suas gramáticas particulares. Ao se expor uma diversidade linguística que, no ambiente escolar e nos livros didáticos, se fingia não existir, se tornou urgente uma mudança radical nas práticas descritivas e pedagógicas. Este livro resulta de crescente interesse em atender às exigências dessa mudança e em assumir uma posição objetiva ante a realidade escolar.

Ensino de gramática: descrição e uso (Portuguese Edition) [Kindle Edition]

Silvia Figueiredo Brandão Silvia Rodrigues Vieira 

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18 de jun. de 2013

Uma breve história do Português do Brasil

A variabilidade linguística do português brasileiro não surgiu por acaso. Antes, a dinâmica linguística que vivenciamos pode ter suas relações com o passado remoto, tão distante quanto os tempos pré-coloniais, rastreada, estabelecida e estudada.

Dentre os aspectos históricos relacionados com a formação social do povo brasileiro e as resultantes variações linguísticas no PB*, podem-se destacar os seguintes: (1) a influência dos povos indígenas; (2) a contribuição dos africanos; e (3) a imigração de europeus.


Acredita-se que havia, no ano de 1500, entre 1 e 6 milhões de indígenas no que hoje é o território brasileiro, com suas cerca de 300 línguas diferentes. Não era de se esperar que da noite para o dia todos começassem a falar a língua portuguesa. Ao contrário, sua implantação foi um processo lento, que incluiu a predominância de “línguas gerais” (a paulista, a amazônica e a de base cariri) por um período de aproximadamente 300 anos, contados a partir de 1500. A “língua geral”, de acordo com MATOS e SILVA (2004), era um “português simplificado com interferências das línguas indígenas e também das africanas”.


Um exemplo da influência das línguas indígenas sobre a variabilidade linguística está na contribuição massiva para o léxico do PB. Do tupi-guarani, por exemplo, o português brasileiro absorveu cerca de dez mil palavras, em sua maioria topônimos, antropônimos e substantivos comuns.


Embora não exista comprovação de influência fonológica ou gramatical das línguas indígenas no PB, é curioso o que se observa no estudo dos índios do tronco macrojê. Algumas tribos ligadas a esse tronco, que não era nômade, que habitavam o Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo, possuíam o “r” retroflexo, também presente no falar caipira, comum entre habitantes do interior daquele estado.


Um segundo fator a ser considerado na caracterização do PB é a influência dos africanos trazidos ao Brasil. Embora haja divergências quanto ao número aproximado, acredita-se que 18 milhões de escravos africanos, das culturas banto e sudanesa, chegaram ao Brasil entre 1538 e 1855, trazendo sua língua, sua cultura e, consequentemente, sua influência sobre as estruturas social e linguística aqui existentes.


Contribuições importantes foram feitas ao léxico por parte dessas culturas. Palavras como lenga-lenga, moleque, cachaça, beleléu e zonzo, fazem parte do legado de cerca de 300 palavras africanas incorporadas ao PB (CASTRO, 1980).


Por fim, mais recente e menos importante que as influências indígena e africana, o português do Brasil foi também influenciado em sua caracterização pela imigração de europeus a partir da segunda metade do século XIX, especialmente depois de 1870. Um quadro que combinava problemas econômicos na Europa, libertação dos escravos e expansão da agricultura brasileira, despertou o interesse de muitos italianos, espanhóis, alemães e portugueses, pelo Brasil.


Diferentes dos africanos, os imigrantes europeus, ao chegarem ao Brasil, já encontraram uma língua nacional, resultado de um movimento pela promoção da “linguagem brasileira”, iniciado em 1826. Embora isso talvez tenha reduzido o impacto da influência desses imigrantes europeus sobre a variabilidade da língua aqui falada, certamente não a anulou por inteiro, visto que pode ser claramente notada, em especial, nas regiões Sul e Sudeste do país.


À luz dos três aspectos considerados acima, a variabilidade linguística no português do Brasil pode ser mais bem compreendida em sua relação com os aspectos sócio-históricos que lhes deram origem.


*PB - Português do Brasil


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WV